2017-08-17

Bravo!

A insistência de quando apelamos aos poderes da inteligência e do raciocínio, como instrumentos sofisticadíssimos e exclusivos dos seres humanos, distanciando-nos do resto das criaturas do planeta, para justificar a velocidade de certas emoções ou comportamentos provenientes de actos cometidos por amor, por amizade ou pelos seus opostos, pode ser tão frustrante como convocar os mesmos poderes para acalmar um reboliço intestinal depois de um almoço pesado ou acelerar as contracções de um parto para que possamos ver finalmente o rosto de um filho tão desejado. Se há maior monstruosidade à existência de uma alma que pretende pensar com a maior nobreza possível, é toda a bioquímica descontrolada que sai dos poros do corpo que a veste porque a perspectiva do nosso mundo pode ser alterada por ela. Michel de Montaigne, um dos maiores humanistas franceses, no séc. XVI entendeu isso na perfeição e na viagem que fez sobre si próprio na procura do conhecimento, vai a um nível tão íntimo do ser humano, que a celebra com uma legenda que se tornou memorável: Mesmo sentados no mais alto trono do mundo, continuamos sentados no nosso cu. Os Reis e os filósofos cagam. E as damas também.

Também à razão humana dedica-lhe toda a sua atenção e desconfiança fazendo paralelismos fantásticos com o mundo animal. Apelidando de estúpidos não só os homens que a desprezam como os que lhe dão confiança excessiva, justificando não ser este o meio para atingir maior sensatez e maior satisfação no reino dos humanos, porque em quase tudo, os animais são superiores a nós, não só apenas na razão mas também na sabedoria. Concorde-se ou não, a verdade é que Schopenhauer, quase trezentos anos mais tarde, refina o pensamento do francês, afirmando que todas as obras produzidas apenas pelo instinto possuem uma perfeição que lhes é peculiar porque correspondem unicamente às exigências dos seus objectivos. E deve-se por isso admirar a sabedoria que há nelas.

A maravilha da filosofia é a facilidade com que ela nos entra pela casa dentro ainda que pensemos erradamente que o lugar dela é nos livros e não no quotidiano das nossas vidas. Ontem, numa situação doméstica, vi tudo isto a acontecer. Estes dois filósofos entraram em minha casa às oito em ponto, quando pela boca do meu filho ouvi o que tinha acontecido na rua alguns minutos antes. E pela sua alma ouvi-lhe os gritos de injustiça. E pelo seu corpo, vi-lhe as lágrimas e cheirei-lhe o forte odor da ansiedade. Numa luta entre a idiotice pelo desprezo absoluto pela razão entre um grupo de cinco miúdos que disputavam entre si a sua supremacia sobre um cão. E o instinto rápido e cru de uma criança de nove anos pela defesa ao ataque sofrido ao seu mais fiel amigo Max – o Vicente terá sido agredido violentamente. E à medida que me contava toda a história e que respondia às perguntas que lhe fazia, todo o equilíbrio entre a minha razão e a irracionalidade da minha loucura que até aquele momento caminhavam a par, estava assegurado pelo estatuto que a maternidade nos dá automaticamente, de forma a gerir a situação da melhor maneira possível. Mas tudo caiu por terra quando o Vicente perguntou: “ Mamã, se estivesses lá, o que fazias?” – os meus olhos estavam colados às nódoas negras que tinha acabado de ver nas costas do meu filho depois de lhe despir a t-shirt e a palavra “pau” não me saía da cabeça, quando lhe respondi: “Matava-os!”.

“A sério?” – perguntou ele, perplexo.

“Matava-os!” – repeti.

Talvez também, tal como os miúdos, ainda que num sentido oposto, tenha dado à minha razão excessiva confiança para justificar uma resposta tão idiota dada ao meu filho ou talvez tenha sido novamente o instinto do Vicente que me fez cair no ridículo da resposta, quando procurou com as palavras seguintes aliviar os limites do drama da situação que entendeu terem sido ultrapassados com uma solução mais razoável: “Se estivessem lá as mães dos meninos, dizia-lhes para que os prendessem cem anos nos quartos deles e que ficassem às escuras para sempre.”

A frase dele fez-me rir e com calma lá chamei o bom senso à conversa mas não sem antes dar-lhe os parabéns, não pelos 10 anos que fará em breve, mas pelos anos de sabedoria que tinha mostrado por ter ficado e defendido um amigo, um animal.

 

 

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