2017-08-17

Marx assenta bem à geringonça

João Maria Condeixa

Podem dar a volta que quiserem ao assunto mas a conclusão é só uma: Portugal registou um crescimento económico de 2,8% no primeiro trimestre e a vida corre bem à Geringonça.

A receita seguida é que está muito longe da que foi prometida. Um governo que se orgulha de não ter um orçamento rectificativo, tem afinal toda uma política económica e orçamental rectificada. Senão vejamos:

O investimento público que seria a alavanca económica de qualquer partido que se diga socialista, cai a pique, situando-se em mínimos históricos.

O consumo interno, que segundo Centeno, seria o motor da recuperação económica, parece ter gripado. Está estagnado há uma série de meses.

Valha-lhes o crescimento das exportações, que segundo diziam seria insustentável sem investimento público. Parece que as previsões socialistas estavam erradas e que a estratégia das empresas vingou, tal como o contributo do Turismo que foi a pasta mais liberalizada pelo anterior Governo.

A legislação laboral ofensiva dos direitos dos trabalhadores afinal até é boa. Continua, depois da profunda reforma desenvolvida pelo anterior governo, a ser um quadro competitivo e flexível, pelo menos enquanto a CGTP não tomar a concertação social de assalto – o que não deve acontecer em breve pois o poder revelou-se um forte sedativo.

O pendor de consolidação orçamental persiste, mas o PCP agora assobia para o lado, fingindo não ver a “obsessão pelos défices.”

A renúncia aos chavões do PCP e do BE sobre saída do euro e de desobediência ao tratado orçamental é total. O “não pagamos” passou a ser só na merceria da esquina.

A reestruturação da dívida que tinha de passar por um hair cut conquista pela luta na rua afinal assenta nos moldes da coligação PSD/CDS-PP: negociar prazos dentro da responsabilidade a respeitar.

É caso, pois para concordar com Marx, o outro, o bom, o Groucho, que dizia ironizando: “…estes são os meus princípios; se não gostar, tenho outros.”

Entretanto, e num período de crescimento em que se deveriam ter políticas de contraciclo para garantir o futuro, vemos que o ímpeto reformista está parado e que navegamos à vista.

Aproveitar para diminuir o tamanho do Estado está fora de questão. Numa altura em que se mostra possível diminuir a presença do Estado por este não ser tão vital do ponto de vista social, a tendência é contrária. Depois queixemo-nos das próximas radiografias quando voltarmos a estar doentes.

 

Ao continuar a usar o site, concorda com o uso de cookies. Mais informação

As configurações de cookies neste website estão definidas como "permitir cookies" para lhe dar a melhor experiência de navegação possível. Se continuar a usar este website sem alterar as configurações de cookies ou se clicar em "Aceitar" em baixo, então está a consentir na utilização de cookies pelo nosso site.

Fechar