2017-10-24

Está tudo listado

João Maria Condeixa

Eu percebo a indignação do Governo. Afinal de contas Portugal não tem grande tradição na publicação de listas e se há coisa que o Estado abomina é a invasão de privacidade e divulgar o que não deve.

À excepção da lista de devedores à Segurança Social, da lista de material bélico roubado, da lista de devedores às finanças, da lista de contribuintes VIP, da lista das maiores fortunas, da lista de portugueses com contas na suíça, da lista de estupefacientes apreendidos, da lista de portugueses procurados pela Interpol, da lista das melhores escolas, da lista dos melhores cursos, da lista dos melhores alunos e dos professores que foram e não foram colocados, das listas de espera nos hospitais, da lista de penhoras, assim de repente não me lembro de nenhuma lista que seja publicada com informação mais ou menos privada e mais ou menos difícil de obter e definir.

E por isso percebo a indignação do Governo. Até porque esta lista estava em segredo de justiça. E se há coisa que não é tornada pública é tudo aquilo que está em segredo de justiça. À excepção de escutas divulgadas, de SMS publicados, de mails tornados públicos, de CDs que não são destruídos, de vídeos que circulam na net, não me lembro assim de repente de nada de que se tenha tido conhecimento indevido.

É óbvio que de quando em vez há uma ou outra fuga de informação dos serviços para os jornais e que o Marques Mendes sabe tudo antes do tempo, incluindo os próximos dados do desemprego do INE ou aquela informação que não era suposto saber sobre as vendas de bancos e suas falências. Mas tirando isso, está tudo estanque e guardado do grande público.

Por isso, sabermos se o número de pessoas que morreu em Pedrógão Grande corresponde à verdade seria totalmente inusitado. Seria abrir um precedente, o que também é muito raro neste país.

Até porque este Governo achou que se queriam conhecer os nomes, o que é um hábito alcoviteiro em Portugal que não leva a nada. E por isso estranhou e reagiu mal quando percebeu que não era isso e que apenas se exigia saber se o Estado, nomeadamente os serviços que devem responder ao Governo, estavam a desempenhar bem o seu trabalho, se tinham prestado a informação correta e se tinham identificado todos os casos para que o Governo pudesse gerir a situação da forma adequada, as seguradoras pudessem pagar a quem de direito e todos os portugueses pudessem descansar porque o assunto estava de facto encerrado.

É por isso que percebo o Governo. Nada disto é habitual. Onde já se viu o Parlamento ou a oposição fiscalizarem o trabalho do executivo e quererem perceber se o Governo está a coordenar e a orientar bem as entidades que tutela? Ou onde já se viu os jornalistas quererem saber mais sobre um assunto que os portugueses vêem mal explicado enquanto as chamas continuam a repetir-se noutros lados sem que nunca haja responsáveis?

Claro que quando essa coisa estranha acontece só se pode qualificar de aproveitamento político ou mau jornalismo. ’tá tudo listado!

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