2017-08-17

Uma oportunidade para quebrar um ciclo péssimo!

Nas próximas semanas a vida de muitos jovens irá ter momentos de ansiedade e ilusão. Com a publicação dos resultados das candidaturas ao ensino superior há uma nova fase da vida que se abre e que certamente influencia o resto da vida académica e profissional.

Para os jovens que escolhem Medicina essa ansiedade é medida em décimas. A forte concorrência para aceder a este curso faz com que o acesso seja determinado por pormenores que incorporam sempre uma grande dose de injustiça. Ninguém acredita que o primeiro aluno a ficar fora da lista por 1 ou 2 décimas seria pior médico que o último a entrar. No entanto estas são as regras do “jogo”.

Para os que estão a terminar o percurso académico há outras preocupações. Sem dúvida uma das mais relevantes é a confirmação, ou não, que uma oportunidade de emprego está ao virar da esquina e o caminho para o sucesso profissional vai começar.

No entanto, de uma forma generalizada, para os que terminam o curso de Medina esta preocupação quase se desvanece. O emprego para licenciados em Medicina, em princípio, não será problema.

Esta semana a ordem dos médicos alertou, mais uma vez, que com a manutenção do atual número de vagas para o curso de Medicina continuará a haver dificuldades em providenciar vagas para o internato dos futuros médicos ao que um responsável governativo da área da Educação retorquiu afirmando que o Estado não tem obrigação em assegurar emprego a todos. Ambas as afirmações são irrefutáveis.

E é neste cenário que temos uma excelente oportunidade para quebrar um ciclo que a ninguém beneficia – ou não beneficia quem interessa – os utentes do Serviço Nacional de Saúde.

A criação de novas oportunidades formativas em matéria de internato só acontece se existirem, em primeira linha, mais hospitais dotados de meios humanos para o fazer. Formar internos implica ter médicos que os acompanhem e que dediquem tempo às atividades formativas e tem como contrapartida o crescimento técnico e cientifico dos formadores e do hospital como um todo. No entanto, quando não há médicos suficientes para formar uma equipa mínima no serviço de urgência, é impensável formar internos.

Como seria de esperar os Hospitais com maiores dificuldades nesta matéria estão no interior, no Nordeste Transmontano, no Alentejo e no Algarve. Por não conseguirem ter equipas médicas estáveis e em numero suficiente, não conseguem atrair internos. E, como não atraem internos, não crescem em competências formativas e em número de médicos.

A solução para romper este ciclo é óbvia – colocar médicos nos Hospitais com maiores necessidades. E aqui, o Estado, na qualidade de maior empregador em saúde tem um papel decisivo na medida em que a abertura de oportunidades de emprego no Serviço Nacional de Saúde é da exclusiva responsabilidade do Governo.

Compete-lhe assim, tomar uma decisão que teria tanto de oportuna como de corajosa e absolutamente reformadora. Nos próximos anos, não seriam necessários mais de dois, bastaria abrir vagas para recém-especialistas exclusivamente nos hospitais carenciados e resistir à pressão dos grandes Hospitais de Lisboa, Porto e Coimbra para fixar os internos que formaram. Esta decisão Política seria uma medida contestada pelo sistema, mas seria ovacionada pelos utentes das regiões carenciadas que passariam a ter médicos suficientes e, no longo prazo, teria como consequência expandir a capacidade formativa do País.

Para os recém-especialistas esta medida será vista como penalizadora, mas, numa perspetiva meramente egoísta, basta pensar que o salário de um médico em Lisboa vale muito menos que o mesmo salário em Évora ou em Vila Real.

Sobre Luis Matos 9 artigos
Member of Executive Board at Hospital da Prelada.

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