2017-08-17

Apetecia-me brincar com os meus filhos

Leio e releio partes de um livro intitulado “Pierre Guérin, sur les pas de Freinet”, isto porque, nestes últimos tempos, em que o sol aquece um pouco mais, o vento amansou, o tempo se mostra mais tranquilo e os dias, embora contando as mesmas horas se tornam mais longos, me tem apetecido dar um outro rumo a um livro por mim escrito e já editado, e torná-lo num outro, rejuvenescido no seu conteúdo e empurrado, se possível, para uma edição a acontecer na Terra de Santa Cruz.
Lembrando Freinet, lembro-me sempre do João e da Mafalda, os meus dois filhos e, ao mesmo tempo, empurro-me muitos anos para trás, recordando quando serpenteamos juntos os Alpes Marítimos franceses, para descobrir os espaços por onde este professor francês ensaiou a sua pedagogia. A visita às suas escolas, à de Le Bar-sur-Loup (a sua primeira escola), à de Saint Paul (onde é exonerado do serviço público) e depois à sua escola privada, também em Vence, leva-me a olhá-los na sua pequenez, ainda tão crianças e recordar as brincadeiras que por vezes tínhamos.
Agora, tão distante desse tempo, parece que todos perdemos o prazer de brincar. Esta coisa de ser adulto é, muitas das vezes, uma chatice!
Apetecia-me brincar agora com eles…saltar por cima das mesas, correr à volta das cadeira da esplanada onde escrevo, cairmos uns por cima dos outros, e até verter-lhes a água por cima das cabeças. Ah, e se o empregado resmungasse, chapina-lo com coca cola, por ser muito pegajosa. Apetecia-me, com eles, subir para cima da escada que está em frente a mim, e empoleirados nela pintarmos o céu com todas as cores do arco íris, mais a cor do mar, a cor do pôr do sol mesmo quando noite, a cor da esperança, a cor da alegria, a cor da amizade, a cor do amor, a cor de alguns lábios e de alguns olhos e até a cor de um sorriso daquelas crianças que nunca viram os pais a sorrirem-lhes. Cada um pintava como queria, com pincéis de tamanhos e de formas diferentes, com pelo ou sem pelo, com as mãos, e até podia pintar com a ponta do nariz mas, para isso, teria que dizer uma mentira piedosa para que o Pinóquio se lembrasse de nós e nos facilitasse a pintura. Podíamos gastar as tintas que nos apetecesse gastar. Só não podíamos apagar o que decidíssemos fazer, isto para nos habituarem que na vida o que fizermos não pode ser nunca apagado…pode ser reorganizado…parado, modificado, mas apagado…não!
O João, quando frente à escola privada de Freinet, em Vence, virou-se para mim e vendo que eu tocava mais do que uma vez na campainha da porta e ninguém atendia, disse-me:
– pai, quando é que o freguês vem?
Ainda hoje nos rimos com ele, pouco importados se ele se recorda muito bem do facto, e ele ri-se connosco: para ele, Freinet ou freguês tanto fazia…para nós, foi importante a troca, uma troca que vinda do passado, incorpora uma incontornável realidade no presente, e que, pela sua afetividade, nunca queremos ver mudada…mantemo-la, enquanto vivermos, inalterável, isto porque nunca poderá ser apagada!
Sobre António Nunes 9 artigos
Doutor em Pedagogia Professor Universitário

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