2017-10-24

A Pedagogia e os Professores: sem aquela, estes não existem

Vêm este artigo na sequência de uma conferência que fiz, esta semana, em Carregal do Sal, a convite da Câmara Municipal, na abertura do ano escolar. Desta escrevi, como resumo, o texto que agora apresento.
Quando olho para o conjunto de “reformas” que, ao longo dos anos, se vão fazendo, na verdade entendo-lhes a natureza: não das reformas em si, mas da origem das mesmas. Não diria que é a ignorância a funcionar (não me atreveria a tal!)… mas vistas bem as coisas, é a imposição daquilo a que os historiadores da educação e os pedagogos apelidam por “gramática da escola”. Por outras palavras: a escola está rigidamente ancorada em regras, a maioria delas invisíveis, inconscientes e manifestamente interligadas, facto que, por si só, as tornam demasiado poderosas para serem, na maioria das vezes, percebidas e entendidas e, por isso mesmo, modificadas. A maioria dos seus executores, um produto desta escola, parecem apresentar esta característica.
Irei debruçar-me, por questões de espaço, não às preocupações dos executores, mas àquilo que não fazendo parte da sua “gramática”, não faz, portanto, parte das suas preocupações. A sua gramática embaralha-os no trivial e no palpável e, até para lhes facilitar a ação, diferentes modelos de ensino, muitos deles estrangeirados, lhes são, cuidadosamente pousados nas suas secretárias para que, calmamente, um deles possam escolher sem grandes polifonias técnicas. Esquecem-se sempre, porque será, porventura, a questão mais complexa, da formação e da carreira profissional de quem ensina, que são, parece-me, ainda os professores.
Seria, bom, pois, se soubessem, ou se acreditassem naquela “coisa” chamada de Pedagogia, que, partindo dela, pudessem dar uma outra atenção àquilo que, ao longo de séculos, homens de grande prestígio na cultura europeia e mundial foram recolhendo sustentados em trabalhos que, devotadamente, foram desenvolvendo em diferentes espaços educativos com os seus educandos: falamos, entre outras coisas, do funcionamento da escola e da intimidade da sala de aulas, o que, a preocupa-los, bastante os ajudaria. Narravam-nos estes, muito das relações e do viver dentro do espaço escolar e da importância dos professores nas aprendizagens e no desenvolvimento dos alunos. Intuíam, séculos atrás, que estes precisavam muito daqueles.
Por isso, numa das suas obras, Erasmo (1466-1536) faz uma espécie de resumo daquilo a que poderemos chamar de Pedagogia Geral. Neste, fala dos métodos e exercícios e da forma como os realizar; da idade em que convém iniciar os estudos; da arte de instruir as crianças; e, de algo que hoje parece arredado das preocupações educativas: a escolha e a qualidade do “mestre”.
Agrícola (1444?-1485), numa carta dirigida ao seu amigo Barbirianus, e sobre este assunto, negando a escolha de teólogos ou de “reitores” nas substituição do “mestre”, diz a dada altura: “É-vos preciso procurar um homem que se pareça com a fénix de Aquiles, quer dizer, que saiba instruir, falar e agir ao mesmo tempo. Se encontrardes um tal homem, aceitai-o seja por que preço for, porque se trata do futuro de vossos filhos, cuja tenra mocidade recebe com igual facilidade a marca do bem e do mal que se lhe apresenta”.
Embora, hoje, o conhecimento de que dispomos sobre estas matérias seja outro, o nosso foco deveria incidir, novamente, sobre as aprendizagens e, para que isso aconteça, o espaço da chamada “sala de aula”, melhor dizendo, tudo aquilo que lá se vai passando, deveria ser a preocupação maior do nosso investimento. E este, sabiam os mais eloquentes homens da história da pedagogia, provém, inevitavelmente, da qualidade dos professores.
Pena que, hoje ninguém repare nisso!
Sobre António Nunes 12 artigos
Doutor em Pedagogia Professor Universitário

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