2017-11-23

Hoje penso o pensamento

No café onde, por norma, costumo parar, ou habitar, como uma amiga minha me costuma dizer (diz, porque só recentemente me conheceu), olho para uma das suas paredes, um olhar tantas vezes para ela lançado, mas que, por isto ou por aquilo, se manifestou sempre vago, distraído, sem nunca se dar ao trabalho de a pensar. Concordo que pensar paredes não se apresenta uma tarefa simples e que contada pode manifestar nos outros uma sensação de estupidez, ou até de uma possível loucura. A idade, por vezes, além da experiência, pode trazer-nos a uma demência senil: pensar paredes! Só na cabeça deste tipo!
Mas, já agora, eu habituei-me a pensar tudo: de cima para baixo, de dentro para fora, o passado, o presente e o futuro, as cidades, o céu, o mar, a morte, o amor, a traição, na cama, na escola, no carro, em viagem, nos cafés (ah, nos cafés. que lugares fascinantes para pensar. elegi-os como o meu espaço de eleição; nota: escrevi com letra minúscula depois do ponto final, porque esteticamente não gostei de ver um mamarracho de um E neste espaço de escrita). Também gosto de pensar a dormir, quando quero dormir e não consigo, ao acordar, olhando, quando rio, quando como, quando falo com a boca cheia, quando estou triste, alegre, embevecido, zangado e, mais recentemente, descobri -sim, porque pensar é descobrir-, o fascínio de pensar sobre a interpretação da aberração, da negação do prazer, da escolha voluntária de uma vida quando se quer outra, no fundo, quando se escolhe ‘desviver’, melhor dizendo, quando alguém pensa uma vida que lhe permita ‘desviver’. Sabendo da sua existência, nunca a tinha pensado. Penso-a agora.
Mas, deixem dizer-vos, que desta parede brota um conjunto de cores, organizadas, objetivamente pintadas num momento próprio da nossa irreverência, da deles, à época, onde a sua organização e geometria nos lembram figuras que, vivendo perto de nós, nos induziram a pensá-las. Olhando-a, sim, a ela, a parede, fico a pensar na vanguarda artística novaiorquina, e, em especial, em Andy Warhol e, já agora, naquela banda louca, “The Velvet Undergound”, que não sei bem a que estilo de música pertencem, mas andariam, penso, pelo Art rock, Rock experimental, Protopunk, Acid rock, ou Rock psicadélico. Fiquei sempre sem saber, mas olhando depois os trabalhos de Lou Reed e de John Cale, penso que fariam parte de todas elas e de muitas mais que desconheço.
Warhol deixa sair, sair de si torrentes de tintas, de cores fortes, quentes, repetidas, sistematizadas, numa criatividade esventrada e numa organização de cores que me permitem, ainda hoje, pensar (que palavra deslumbrante) as vidas de Elvis, de Marilyn Monroe, ou de Liz Taylor, bem como as vidas das latas de sopa Campbell ou das garrafas de Coca Cola, não falando já do que seria pensar a vida do Moon Museum.
Pensar é um desafio permanente, próprio da humanidade, reconstrutor e inovador. Pessoa, no seu Livro do Desassossego, diz-nos que “Pensar é destruir. O próprio processo do pensamento o indica para o mesmo pensamento, porque pensar é decompor.”
Sobre António Nunes 12 artigos

Doutor em Pedagogia
Professor Universitário

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