2017-11-23

Web Summit – Novas ideologias para combater

Segundo o Jornal Observador “No último dia da Web Summit, as conferências foram marcadas por Al Gore, aplaudido de pé, pelo discurso emocionado da mulher transgénero mais famosa do mundo, Caitlyn Jenner, e por Sara Sampaio.”. Cá está, tudo o que se espera de uma organização que pretenderia promover o empreendedorismo, lançar negócios, aumentar o investimento e, como consequência, criar riqueza.

Um evento em que, penosamente, verificamos que o Primeiro-Ministro de Portugal ou o Secretário Geral das Nações Unidas são incluídos no leque de conferencistas, sem destaque, como se de quaisquer excêntricos tecnológicos se tratassem quando ocupam cargos de elevado prestigio e responsabilidade. Sinais dos tempos, de quem julga que tudo e todos são iguais e de políticos que não se dão ao respeito…

As três personagens citadas pelo Observador são exemplos de cidadãos, respeitáveis e relevantes no seu sector de atividade (!), mas que nunca criaram empregos ou tiveram a preocupação de pagar salários no final do mês. São os exemplos que reforçam a ideia que a “web summit” é um evento em que o modelo de negocio é vender bilhetes para uma exposição e não uma verdadeira feira de investimento e negocio como nos tentam impingir. Aliás, basta ver os resultados deste e dos anos anteriores e verificamos que o destaque incide invariavelmente sobre o número de dormidas nos hotéis, o acréscimo de pessoas em Lisboa nesses dias, mas não sobre o número de empresas criadas, empregos gerados ou volumes de exportação acrescidos.

Na “web summit” deste ano apreciaram-se as grandes ideias do futuro com a chamada “inteligência artificial”, aplicações para facilitar divórcios difíceis (!!!!), carros que no futuro vão voar e dispensam condutores humanos e frigoríficos inteligentes (Cruzes Credo!!!). Tudo aplaudido de pé por jovens sonhadores e empreendedores, dos quais apenas uma pequena parte poderá ter sucesso, e a acontecer será, muito provavelmente, nos Estados Unidos, na Ásia ou na Europa desenvolvida. Para Portugal fica o secundaríssimo papel de montra de exposições.

Por outro lado, é difícil aceitar o envolvimento de políticos com responsabilidades que passam por esta feira e não deixam uma palavra de preocupação para os perigos que o desenvolvimento tecnológico vai trazer para o emprego. Bem sabemos que os políticos de hoje em dia trabalham para a primeira página do jornal do dia seguinte e afirmar que o que viram na “web summit” representa maior desemprego no futuro e uma transformação social que ninguém está em condições de prever não rende “gostos” no Facebook, mas é disso que estamos a falar.

A teoria económica é clara, quando acrescentamos tecnologia na função produção, o recurso trabalho tem que ser substituído e foi precisamente sobre isso que a “web summit” versou e poucos notaram.

A chamada “inteligência artificial”, hoje em dia, significa substituir pessoas por máquinas e para os trabalhadores que hoje tem mais de 45 anos e, pelo menos, mais 15 anos de vida ativa pela frente a adaptação ao admirável mundo novo que a “web summit” quer vender não será fácil. Por um lado, porque não possuem as competências necessárias e por outro porque, neste contexto, estes trabalhadores já não são considerados necessários o que implicaria que se limitassem a existir no tempo que os separa da reforma.

O futuro que estes “techies” estão a criar e que os decisores políticos acefalamente aplaudem, tem tudo para ter péssimos resultados do ponto de vista económico e, mais importante, social. A exclusão social vai aumentar e corremos o risco de olhar para alguns como (ainda mais) descartáveis.

Por isso, talvez fosse bom, depois da feira, fazer uma conversa tranquila sobre o mundo que estamos a criar e se, efetivamente, é nele que pretendemos viver.

 

Sobre Luis Matos 15 artigos

Member of Executive Board at Hospital da Prelada.

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